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Quando Lembrares de Mim

 

Quando lembrares de mim

Procura no céu uma estrela

Na terra uma estrada amarela

No mar um destino de rio

 

Quando lembrares de mim

Entrega ao vento um desejo

Revela no tempo um segredo

E canta a canção do prazer

 

Quando lembrares de mim

Descobre no sol um caminho

No olhar um sinal de carinho

Na boca o sabor das manhãs

 

Quando lembrares de mim

Que seja por conta do dia

Que a vida se fez poesia

Um sonho que Deus permitiu

 


 

Verônica, o Céu e o Inferno

 

Verônica surgiu do nada. Usava saias curtas, camisetas largas e aparentava 17 anos. Escondia o excesso de peso concentrado no abdômen ao tempo que valorizava os protuberantes e empinados seios. Era sobrinha de alguém que não conhecíamos e apareceu num começo de outono. Apareceu como uma flor que resistira o verão e teimava em enfrentar o inverno.

No repertório, uma infinidade de novidades que, para a época, eram premissa dos extravagantes. Dizia-se da capital e impressionava pela desenvoltura que falava de questões proibidas. Surpreendia-mos com seu conhecimento sobre a trilogia sexo, drogas e rock’roll. Discorria – displicente e longínqua – sobre aventuras em lugares mágicos, viagens extraordinárias que, amplificadas por nossa imaginação, tomavam proporções imensas.

Lembro de perder o sono com isso. Como seria eu na pele de um daqueles anti-heróis urbanos? O que faria diante de situações com traficantes sequiosos ou policiais sedentos ou famílias desesperadas? Como enfrentaria o olhar severo das imagens santas da capela do Sagrado Coração de Maria? Meu coração se dividia entre o gosto pelo desconhecido e a cultura que convivia.

Transitava com os personagens de Verne, Dumas, Twain e Victor Hugo, enfim, era comum sonhar-me combatendo bugres ao lado de I-Juca Pirama. Era Verônica, o céu e o inferno e, pela primeira vez, sentia-me tentado. Tanto que me apaixonei por ela. Inevitável.

Verônica não tinha horário nem hábitos; nem primas nem amigas. Surgia sem anúncios. Era como a tempestade; arrebatadora e magnífica. Mostrava-se a cada dia diferente; ora provocante por vezes distante. Nunca descartei a idéia de declarar-me, acho que todos os meus amigos pensaram nisso - faltava-nos coragem. Até poema escrevi pra ela - nunca mostrei, faziam parte de um mundo que só a nos dois pertencia. Sentia-me livre a seu lado, pouco falava. Bastava estar ali e beber e beber e beber o êxtase daquele canto.

Um dia, sem adeus, ela foi-se embora. Nunca esqueci, tampouco esperei sua volta.

 


Quebranto de Poeta Triste

 

Mirava o tempo através da alma

Que embaçada pelo pranto

Era recanto da lembrança infinda

Quebranto de poeta triste

 

Mirava a rua pela porta fria

Que escancarada se debatia

Nos braços da tempestade

Que sufocava noite e poesia

 

E assim brotavam as palavras

Livres de qualquer corrente

Presentes, vivas e dementes

 

E assim brotavam rimas

Reticentes, duras, complacentes

Bêbadas, dissonantes, dissidentes

 


         

         Dia dos Mortos

 

 

Era um dia de infância sem tempo marcado ou palavra empenhada. Um dia sem sal, desses que o destino - cansado de guerra - concede uma trégua aos viventes. Era o dia dos mortos onde os vivos mais velhos cerravam os cenhos fingidos. Nem música ou conversa fiada ou ambulante gritando na rua; dia de oração e lembrança, penitência e perdão. Um dia de cão para os vivos crianças que, por vezes, esquecendo a razão, arriscavam um sorriso ou uma cantoria qualquer. Não havia alegria tampouco tristeza, apenas inércia e um irritante descaso com a vida.

Meu pai madrugava e, por conta de suas crenças, assistia a missa das seis no Educandário Coração de Maria. Nunca o vimos sair, assim mesmo sabíamos que estava lá. Era certo como o trem Minuano que toda quinta chegava de Bagé. Adiante, compreendi que isso era tradição, algo que nascemos sabendo, atitudes que incorporamos a alegria da vida e um dia encontramos na gaveta das lembranças perdidas.

Sem pressa, vivos de todas as idades seguiam na direção da rua Dois de Novembro, destino dos caminhantes silentes e sede de todos os mortos. Duas quadras em que, até hoje, separadas pelos trilhos da 1º de Maio, abrigam dois cemitérios. De um lado os mortos católicos, do outro os protestantes. Á noite, o “dos pobres” como era chamado o dos padres, servia aos batuqueiros com seus despachos e capas vermelhas.

Elisa se fora naquele inverno. Com seus trinta e poucos anos, marido, dois filhos e uma válvula mitral em seu peito. Todos a adoravam, pequenina e sem papas na língua, frágil como uma pétala, resistente feito esperança de pobre. Foi nossa primeira perda, minha primeira saudade.

Não fugindo a regra, alguém trabalhava e ganhava o dia feriado. Pão dormido para os encarregados da última morada, pão doce para os vendedores de flores e velas, pão de milho para os vivos padres que, por força das contingências, rezavam infinitos rosários mantendo um semblante grave e pesaroso.

Nossa casa era humilde, um chalé de madeira com paredes amarelas, janelas vermelhas e um pequeno “halzinho”, forma como minha mãe se referia ao pequeno saguão que antecedia a porta principal. Com muro baixo e um portão também de madeira, o pátio frontal escoava-se por um corredor a direita da entrada. Caminho que, a sombra de dois enormes abacateiros, conduzia a vista do quarador de roupas, do galpão e levava a porta dos fundos. Ainda, no vasto terreno – antiga quadra de basquete – tinha um galinheiro, com um galo e quatro galinhas ao lado de uma gaiola com um casal de garnisés de minha propriedade. Tudo em frente ao galpão e atrás do novo banheiro de alvenaria, substituto da casinha e construído fora da casa prenunciando que um dia teríamos uma nova cozinha e, porque não, até outros quartos.

Ciprestes concediam o tom às alamedas sombrias. Isso, aos olhos dos vivos crianças que, sem entender muito bem, liam e reliam epitáfios por tempo em que os vivos culpados limpavam e enfeitavam as covas dos mortos parentes. Muitos choravam, outros concediam olhares e mais olhares. Alguns, pelos corredores, interrompiam a caminhada e balançavam a cabeça em negativa.  Eloá, amiga de minha mãe, dizia que: “eram gente que não aceitava a morte”.

Dacila não quis ser normalista, preferiu cursar o científico no Lemos Júnior e, depois, prestar vestibular para Engenharia Industrial. Naquele tempo, o concurso era escrito e a faculdade contava com grande prestígio. Se não me trai a memória, minha irmã foi a primeira ou segunda mulher na cidade a ingressar neste curso. Havia ainda Rosina, minha irmã do meio e rainha das estripulias. Não houve semana dos seus treze anos que não voltasse com queixas ou que minha mãe não fosse chamada à escola para explicações.

Na feira, formada de improviso por ambulantes, havia de tudo. Velas de todas as cores e dias, flores, rosários, bíblias, santos de barro e até pretinho velho de cachimbo. Ali se comentavam as virtudes e os pecados e, enfim, o quanto era preciso nesta vida, até galgar um lugar no céu.

- Lugar dos mortos ricos. Dizia tia Moça, lembrando as gordas contribuições que garantiam um lugar de destaque nas missas, no campo santo e por conseqüência no esplendor celeste.

- Pobre chegar ao céu? Só santo. Encerrava irrefutável.

Santa Rosa de Lima contribuía com os negócios ventando o que não podia e, pior, nem era seu dia. E que dia – esse dos mortos! Por vezes tínhamos a impressão que sucumbiríamos também; ou a monotonia ou aos ventos antigos.

 


 

De onde vem os poetas?

 

De onde vem os poetas;

Do planeta dos guardanapos,

do universo das canetas?

 

De uma paixão insana, desmedida, desumana;

de um amor sem réguas, tréguas ou rancores?

 

De onde vem os poetas;

De um lugar no fim do mundo

onde o gato perdeu as botas?

 

Da solidão das noites frias, da saudade, da melancolia;

De um momento de alegria, luz e acolhimento?

 

De onde vem os poetas;

De uma energia inteligente

intermitente, clara e abstrata?

 

Da luminosa estrela nova que cai sobre esta terra,

iluminando os pedidos de um sonhador comum?

 

De onde vem os poetas;

De um genoma indecifrável

construído nas provetas?

 

Dessa louca aventura hereditária de viver e reviver eternamente,

como um vago e solitário penitente numa cela construida pelo tempo?

 

De onde vem os poetas;

De um colorido quintal da infância,

da abnegação de um asceta?

 

Do Bosque Estético de Tithorea, de Minemósine, Plinea, de Caliope,

do religare oculto da filosofia num sem fim de hipócritas e cínicos?

 

De onde vem os poetas;

Da Basílica de São Pedro,

Dos labirintos de Meca?

 

Como anjos decaídos surgem de todos os lugares

Pelos mares da loucura navegando alma e sentimento

 

De onde vem os poetas;

Vem do norte, vem do sul;

pela rosa desses ventos?

 

Das esquinas do pecado, do desejo mais sublime?

Hoje eu me respondo: os poetas vem de dentro!

 


Canção sem tempo

 

Há muito que procuro a verdade

Invento frases e reencontro a fantasia

Respiro, reverbero e reinvento pensamentos

Desfaço o julgamento, o argumento e a palavra

Condeno e me condeno ao sentimento

De querer uma canção sem tempo

 

Algo entre a lembrança de um amor sem fim

E o futuro revelado em amargura

Livre como a rima que perdura pelas luas

De um caminho anunciado em poesia

Vereda que intenta flores, frutos e perfumes

Alhures - um destino traiçoeiro

 

Há muito que procuro a humanidade

E a leitura abstrata de seus modos

Seja no afeto de um pequeno movimento

Repleto de doçura e acolhimento

Seja na loucura do querer concreto

Lascivo, direto e apaixonado

 

Um trem sem freios que desabalado

Se vai determinado - incauto - vida afora

Passageiro peregrino do pecado

A revelia do presente e do passado

Há muito que procuro humanidade

No tempo, na pergunta e na resposta

 






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