Quebranto de Poeta Triste
Mirava o tempo através da alma
Que embaçada pelo pranto
Era recanto da lembrança infinda
Quebranto de poeta triste
Mirava a rua pela porta fria
Que escancarada se debatia
Nos braços da tempestade
Que sufocava noite e poesia
E assim brotavam as palavras
Livres de qualquer corrente
Presentes, vivas e dementes
E assim brotavam rimas
Reticentes, duras, complacentes
Bêbadas, dissonantes, dissidentes
Dia dos Mortos
Era um dia de infância sem tempo marcado ou palavra empenhada. Um dia sem sal, desses que o destino - cansado de guerra - concede uma trégua aos viventes. Era o dia dos mortos onde os vivos mais velhos cerravam os cenhos fingidos. Nem música ou conversa fiada ou ambulante gritando na rua; dia de oração e lembrança, penitência e perdão. Um dia de cão para os vivos crianças que, por vezes, esquecendo a razão, arriscavam um sorriso ou uma cantoria qualquer. Não havia alegria tampouco tristeza, apenas inércia e um irritante descaso com a vida.
Meu pai madrugava e, por conta de suas crenças, assistia a missa das seis no Educandário Coração de Maria. Nunca o vimos sair, assim mesmo sabíamos que estava lá. Era certo como o trem Minuano que toda quinta chegava de Bagé. Adiante, compreendi que isso era tradição, algo que nascemos sabendo, atitudes que incorporamos a alegria da vida e um dia encontramos na gaveta das lembranças perdidas.
Sem pressa, vivos de todas as idades seguiam na direção da rua Dois de Novembro, destino dos caminhantes silentes e sede de todos os mortos. Duas quadras em que, até hoje, separadas pelos trilhos da 1º de Maio, abrigam dois cemitérios. De um lado os mortos católicos, do outro os protestantes. Á noite, o “dos pobres” como era chamado o dos padres, servia aos batuqueiros com seus despachos e capas vermelhas.
Elisa se fora naquele inverno. Com seus trinta e poucos anos, marido, dois filhos e uma válvula mitral em seu peito. Todos a adoravam, pequenina e sem papas na língua, frágil como uma pétala, resistente feito esperança de pobre. Foi nossa primeira perda, minha primeira saudade.
Não fugindo a regra, alguém trabalhava e ganhava o dia feriado. Pão dormido para os encarregados da última morada, pão doce para os vendedores de flores e velas, pão de milho para os vivos padres que, por força das contingências, rezavam infinitos rosários mantendo um semblante grave e pesaroso.
Nossa casa era humilde, um chalé de madeira com paredes amarelas, janelas vermelhas e um pequeno “halzinho”, forma como minha mãe se referia ao pequeno saguão que antecedia a porta principal. Com muro baixo e um portão também de madeira, o pátio frontal escoava-se por um corredor a direita da entrada. Caminho que, a sombra de dois enormes abacateiros, conduzia a vista do quarador de roupas, do galpão e levava a porta dos fundos. Ainda, no vasto terreno – antiga quadra de basquete – tinha um galinheiro, com um galo e quatro galinhas ao lado de uma gaiola com um casal de garnisés de minha propriedade. Tudo em frente ao galpão e atrás do novo banheiro de alvenaria, substituto da casinha e construído fora da casa prenunciando que um dia teríamos uma nova cozinha e, porque não, até outros quartos.
Ciprestes concediam o tom às alamedas sombrias. Isso, aos olhos dos vivos crianças que, sem entender muito bem, liam e reliam epitáfios por tempo em que os vivos culpados limpavam e enfeitavam as covas dos mortos parentes. Muitos choravam, outros concediam olhares e mais olhares. Alguns, pelos corredores, interrompiam a caminhada e balançavam a cabeça em negativa. Eloá, amiga de minha mãe, dizia que: “eram gente que não aceitava a morte”.
Dacila não quis ser normalista, preferiu cursar o científico no Lemos Júnior e, depois, prestar vestibular para Engenharia Industrial. Naquele tempo, o concurso era escrito e a faculdade contava com grande prestígio. Se não me trai a memória, minha irmã foi a primeira ou segunda mulher na cidade a ingressar neste curso. Havia ainda Rosina, minha irmã do meio e rainha das estripulias. Não houve semana dos seus treze anos que não voltasse com queixas ou que minha mãe não fosse chamada à escola para explicações.
Na feira, formada de improviso por ambulantes, havia de tudo. Velas de todas as cores e dias, flores, rosários, bíblias, santos de barro e até pretinho velho de cachimbo. Ali se comentavam as virtudes e os pecados e, enfim, o quanto era preciso nesta vida, até galgar um lugar no céu.
- Lugar dos mortos ricos. Dizia tia Moça, lembrando as gordas contribuições que garantiam um lugar de destaque nas missas, no campo santo e por conseqüência no esplendor celeste.
- Pobre chegar ao céu? Só santo. Encerrava irrefutável.
Santa Rosa de Lima contribuía com os negócios ventando o que não podia e, pior, nem era seu dia. E que dia – esse dos mortos! Por vezes tínhamos a impressão que sucumbiríamos também; ou a monotonia ou aos ventos antigos.
De onde vem os poetas?
De onde vem os poetas;
Do planeta dos guardanapos,
do universo das canetas?
De uma paixão insana, desmedida, desumana;
de um amor sem réguas, tréguas ou rancores?
De onde vem os poetas;
De um lugar no fim do mundo
onde o gato perdeu as botas?
Da solidão das noites frias, da saudade, da melancolia;
De um momento de alegria, luz e acolhimento?
De onde vem os poetas;
De uma energia inteligente
intermitente, clara e abstrata?
Da luminosa estrela nova que cai sobre esta terra,
iluminando os pedidos de um sonhador comum?
De onde vem os poetas;
De um genoma indecifrável
construído nas provetas?
Dessa louca aventura hereditária de viver e reviver eternamente,
como um vago e solitário penitente numa cela construida pelo tempo?
De onde vem os poetas;
De um colorido quintal da infância,
da abnegação de um asceta?
Do Bosque Estético de Tithorea, de Minemósine, Plinea, de Caliope,
do religare oculto da filosofia num sem fim de hipócritas e cínicos?
De onde vem os poetas;
Da Basílica de São Pedro,
Dos labirintos de Meca?
Como anjos decaídos surgem de todos os lugares
Pelos mares da loucura navegando alma e sentimento
De onde vem os poetas;
Vem do norte, vem do sul;
pela rosa desses ventos?
Das esquinas do pecado, do desejo mais sublime?
Hoje eu me respondo: os poetas vem de dentro!
Canção sem tempo
Há muito que procuro a verdade
Invento frases e reencontro a fantasia
Respiro, reverbero e reinvento pensamentos
Desfaço o julgamento, o argumento e a palavra
Condeno e me condeno ao sentimento
De querer uma canção sem tempo
Algo entre a lembrança de um amor sem fim
E o futuro revelado em amargura
Livre como a rima que perdura pelas luas
De um caminho anunciado em poesia
Vereda que intenta flores, frutos e perfumes
Alhures - um destino traiçoeiro
Há muito que procuro a humanidade
E a leitura abstrata de seus modos
Seja no afeto de um pequeno movimento
Repleto de doçura e acolhimento
Seja na loucura do querer concreto
Lascivo, direto e apaixonado
Um trem sem freios que desabalado
Se vai determinado - incauto - vida afora
Passageiro peregrino do pecado
A revelia do presente e do passado
Há muito que procuro humanidade
No tempo, na pergunta e na resposta